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Bovinos Leche

Manejo de bezerros bubalinos, em uma pecuária de leite
Alberto Couto
couto.a@uol.com.br

Resumen: Este trabalho é a síntese do nosso estudo sobre “Manejo de Bezerros Bubalinos em uma Pecuária de Leite”. Procurei escrevê-lo de uma maneira simples, de fácil compreensão, de acordo com nossos conhecimentos.
Como fonte de pesquisa tivemos: observações no dia a dia, livros, internet, pesquisadores e opiniões de amigos. Nesse universo de dados, filtramos o que havia de mais interessante.
Com 60 búfalas paridas desde a implantação do sistema, fazendo duas ordenhas diárias e sem apresentar nenhum óbito em bezerros, podemos dizer que alcançamos os nossos objetivos mediante os resultados: bezerros com pelos limpos, lustrosos a correrem pelas campinas numa demonstração nítida de felicidade...
Fico satisfeito em poder, com esse trabalho, contribuir em prol da bubalinocultura.

Contenido:

Na pecuária de corte, em que todo leite das búfalas fica para os bezerros, só as vermifugações e vacinações normais é que deverão preocupar os produtores. Em uma pecuária bubalina de leite, onde são feitas duas ordenhas diárias, o produtor restringe o consumo de leite do bezerro, levando-o muitas vezes à morte por inanição.

Caso a apartação das búfalas não seja bem feita, ou ocorra morte súbita dos bezerros nos primeiros dias de nascidos, esses fatos entre outros, poderão causar estresse a essas búfalas, acarretando um corte em suas lactações. Relataremos abaixo um modelo de manejo que irá evitar desagradáveis ocorrências.

Neste trabalho, procuramos equilibrar as partes bezerro gordo x produtor bem remunerado. Isso, que antes era incompatível para nós, hoje se tornou possível através de uma parceria entre o produtor e o bezerro. Todos sabemos que a mozzarella feita com leite que tem resíduo de colostro, não fila e que o leite da búfala, com até 15 dias de parida, ainda tem colostro.

As afirmativas acima constituem a base da parceria: o bezerro fica com o leite contendo colostro e o produtor fica com o leite sem resíduo de colostro. O leitor poderá indagar-”...mas todo leite com colostro de minhas búfalas vai para o bezerro!!!”

Sim, vai para o bezerro, mas às vezes de uma maneira errada. Mama o colostro o bezerro que já deveria estar apartado, tirando o leite daquele que precisa. O leitor irá compreender melhor quando explicarmos o manejo de bezerros.

1.0    ETAPAS DO SISTEMA DE MANEJO

1.1   OS BEZERROS

1.1.1       Bezerros no 1o dia de nascidos

Após o parto, as búfalas ficam com suas crias entre 24 horas e 36 horas, sem serem importunadas. Parindo na manhã de um dia, virão para o curral na manhã do outro dia. Parindo à tarde ou à noite de um dia só virão para o curral na manhã do segundo dia. Esse manejo dará oportunidade ao recém nascido de mamar nas primeiras 24 horas, 10% do seu peso em colostro, produzido por sua mãe.

É de vital importância que o bezerro mame o colostro entre 6 a 10 horas de nascidos, quando seu aparelho digestivo estará no pico de absorver esse alimento como fonte de anticorpos. A partir desse tempo, o leite com colostro será uma excelente alimento, entretanto o poder de imunização irá diminuindo até findar com 36 horas após o nascimento do bezerro.

Rico em proteínas e imunoglobulinas, o colostro não só aumenta a imunidade do bezerro às doenças, como também contém uma poderosa substância que acelera seu crescimento, só perdendo para o hormônio testosterona na capacidade de estimular a síntese protéica. O colostro é um alimento próprio para recém nascidos. Por ser laxativo, elimina o mecônio, fezes dos recém nascidos, de difícil eliminação. Quando consumido por bezerros maiores, não funciona como imunizante e provoca diarréia se consumido puro.

Muitas vezes, acontece que matrizes, ao parirem, ficam agitadas ao verem urubus ou cachorros querendo comer resto de placenta ou mesmo o umbigo do bezerro. Atoleiros, úberes com tetos muito grossos, a concorrência com bezerros mais velhos, entre outros, são obstáculos que impossibilitam que o bezerro mame nas primeiras horas de nascido. Não mamando no primeiro dia, no segundo já se encontra muito fraco, sem forças para mamar, e no terceiro dia, morre. Para justificar sua incompetência, o vaqueiro diz que foi a cobra. Para evitar tais situações, é importante que se esteja atento a esses fatos.

Como já falamos anteriormente, após os partos das búfalas e sem importuná-las, devemos curar os umbigos dos bezerros com uma solução de álcool iodado. Esse procedimento é muito importante para a saúde das crias e das búfalas, no caso de retenção de placenta.

1.1.2       Bezerros até o 3o dias de nascidos

Ainda muito fraquinhos, até o 3o dia de nascidos, esses bezerros deverão permanecer com suas mães em um piquete separado. Esse manejo evita que bezerros mais velhos mamem todo o colostro, tirando-o daqueles que necessitam. Após a ordenha da manhã, e no segundo dia de nascidas, as crias com suas mães serão conduzidas para o curral, onde o restante de leite dessas búfalas será fornecido diretamente nas tetas, aos bezerros menores ou mais debilitados do rebanho. Caso as búfalas não permitam que outro bezerro mame, deve-se contê-las e amarrar um pé. Posteriormente, essas búfalas ficarão com suas crias até o outro dia em um piquete separado, quando retornarão ao curral para uma nova esgota (esgota = retirada de todo leite do úbere).

1.1.3 Bezerros com 4 a 60 dias de nascidos

Após a ordenha da manhã, esses bezerros deverão vir para o curral, onde as amas de leite, contidas e amarradas por um pé, terão os seus úberes esgotados pelos bezerros mais novos e aqueles mais fracos. Esta prática tem como finalidade equilibrar o estado corporal dos bezerros e evitar que venham a morrer de inanição, fato muito comum em um rebanho leiteiro. O sucesso do sistema dependerá da eficiência desse manejo.

Após a esgota, e todas as manhãs, os bezerros de até 60 dias de nascidos vão para o campo com suas amas de leite, que no início de suas vidas, serão suas mães. Estando no campo, não só mamam livremente, como também exercitam suas mandíbulas no capim tenro das várzeas. Concomitantemente, vão adaptando os seus rumens para a transformação de monogástrico para ruminante.

Entre a segunda ordenha e a primeira do outro dia, ou seja, à noite, só ficarão com as amas de leite os bezerros com menos de 30 dias de nascidos. Com isso, evitamos a concorrência pela diferença de idade. Os restantes, entre 30 e 60 dias de nascidos, conseqüentemente os mais fortes, ficarão no bezerreiro, com ração balanceada, água limpa, sal mineral e um pouco de feno de boa qualidade.

Há correntes conceituadas que defendem que não será necessário fornecer volumosos a esses bezerros, alegam que a ração balanceada é suficiente para desenvolver seus rumens nessa idade.

Entre 10 a 15 dias de nascidos, é importante que se faça ao mesmo tempo a descorna (caso o produtor use essa prática) e uma vermifugação. Os vermífugos mais novos atingem endo e ectoparasitos, combatendo ao mesmo tempo a verminose e a miíase (bicheira) no local da descorna. Bezerros descornados deverão ficar no mínimo 12 horas sem contato com suas mães. Isso evita que as mesmas retirem com lambidas, o ungüento cicatrizante que foi usado no local da descorna.

Essa prática promove as seguintes vantagens:

·        Maior docilidade das futuras matrizes

·        Maior facilidade em transportá-las, em caminhões

·        Menor número de acidentes nas brigas

·        Menor destruição de cercas

·        Por aparentarem mais jovens, facilitam a comercialização

Enfim, o meu amigo Colaço, diz que chifre só serve para fazer confusão.

Obs. - Desenvolvemos há anos atrás, um ferro de amochar, eficiente e prático, cujos detalhes encontram-se no boletim No 1 da Associação Brasileira de Criadores de Búfalos (ABCB).

1.1.4 Bezerros com mais de 60 a 90 dias de nascidos

O aleitamento deverá ser suspenso aos bezerros que, após os 60 dias de nascidos, estejam comendo acima de 800g de ração balanceada, e com peso superior a 70kg. Diariamente, e antes da ordenha, deverão vir para o curral, onde receberão uma suplementação alimentar à base de concentrados, capim, sal mineral, e água de boa qualidade.

Caso ainda persista o interesse das búfalas por essas crias, o que é muito raro, estas deverão ir para o curral de reconhecimento.

1.1.5      Bezerros com mais de 90 dias de nascidos

Após 90 dias de nascidos, os rumens dos bezerros já estão bem desenvolvidos. Para reduzir o preço de suas dietas, podemos substituir o concentrado por uréia, desde que bem administrada. Esses bezerros poderão ir para o campo onde deverão ter acesso livre à água de boa qualidade, sal mineral, sal/uréia ou melaço/sal/uréia, desde que esses suplementos estejam bem protegidos das chuvas.

1.2 AS AMAS DE LEITE

1.2.1 Proporção bezerros x amas

Adotamos inicialmente a proporção de uma ama para cada três a quatro bezerros. Essa proporção irá depender da produção de leite das amas.

O fornecimento de ração concentrada às amas de leite proporcionará um aumento de bezerros por ama. Entre 15 a 20 dias, a flora bacteriana do rúmen dessas búfalas estará totalmente adaptada a esse novo tipo de alimento. É um período em que a maioria das amas estará passando para a fase de ordenha, no pico de suas lactações.

1.2.2 A escolha das amas

Escolhemos para amas de leite, as búfalas que pariram por último. Entretanto, caso haja amas com mais de 15 a 20 dias de paridas, estas poderão ser substituídas por búfalas que apresentam problemas na ordenha, búfalas com mastite ou búfalas que só ordenham com bezerro ao pé. Algumas dessas búfalas, não aceitam a condição de ama e não permitem que os bezerros mamem no campo. Caso isso aconteça, quando recolhidas na sala de ordenha para a esgota, ao serem contidas e amarradas por um pé, fornecerão leite para os bezerros mais fracos. Nessa condição, dificilmente elas resistirão ao apojo, mas caso não apojem, podemos administrar 1ml de ocitocina. Entre um a dois minutos já iremos observar o apojo, indicado pela espuma na boca do bezerro que está mamando.

Nesse nosso sistema, temos casos de cura de mastite subclínica em búfalas, simplesmente por terem passado um determinado tempo como amas de leite. Estando os úberes constantemente esgotados pelos bezerros, dificilmente as bactérias causadoras da mastite terão condições de proliferarem. Porém, existem casos que persistem ou voltam a apresentar essa infecção.

1.2.3 A glândula mamária de toda fêmea, quanto mais solicitada mais produz leite

A premissa acima nos levou ao entendimento que a ama de leite deveria ficar o dia todo com seus pupilos. Com isso, acreditamos num aumento de leite na ordem de no mínimo 20%. Essa conduta difere de outros sistemas, nos quais as amas aleitam uma ou duas vezes ao dia.

1.3 CONTATO DAS BÚFALAS COM SEUS FILHOS

Destacaremos duas maneiras de contatos:

1.3.1 Contato direto das búfalas com os seus filhos.

Após a ordenha, os bezerros permanecerão com suas mães por um pequeno período de tempo, o suficiente para que elas reconheçam os seus filhos. Esse encontro garantirá a continuidade da lactação. A prática tem como desvantagem proporcionar um aumento de mastite no rebanho. Algumas búfalas, após a ordenha, estando com seus úberes secos, não permitem que os bezerros mamem, mesmo tratando-se de seus filhos e, na tentativa de se livrar dos impertinentes, deitam-se. Estando com os esfíncteres relaxados, devido a ordenha, o contato com a lama, proporciona a entrada de bactérias, causadoras de mastites, pelo canal do teto. Por essa razão, aconselhamos o sistema a seguir.

1.3.2 Contato das búfalas com seus bezerros sem que esses tenham acesso aos úberes de suas mães. O curral de reconhecimento.

Para evitar que as búfalas sejam acometidas de mastite, moléstia que traz tantos prejuízos para a produção, resolvemos desenvolver um curral em que as matrizes possam reconhecer suas crias, apenas colocando as cabeças para dentro do mesmo. Desse modo, podem acariciá-las o tempo que achar necessário, sem que os bezerros tenham acesso aos úberes das suas mães. A passagem das búfalas ao lado desse curral é obrigatória, pois fica entre a sala de ordenha e um cocho com comida farta e boa. Com esse sistema, conseguimos diminuir consideravelmente a mastite em nosso rebanho.

1.4 APARTAÇÃO DAS BÚFALAS SEM QUE ESTAS FIQUEM ESTRESSADAS

As búfalas passam os primeiros dias após sua parição como amas de leite, e ao mesmo tempo com seus filhos. Quando elas deixam de ser amas e iniciam a fase da ordenha, só terão acesso às suas crias através do curral de reconhecimento. Esse encontro só acontece quando as búfalas estão com seus úberes secos, logo após a ordenha, e os bezerros estão de barriga cheia, pois já mamaram em suas amas de leite. Nessa situação, nem os bezerros berram atraindo as búfalas, nem elas procuram os bezerros para esgotarem os seus úberes, pois já estão vazios. Apenas um pequeno percentual de búfalas colocam suas cabeças para dentro do curral de reconhecimento e após ter a certeza que seus filhos estão bem, saem em direção ao cocho, onde uma boa ração as esperam. A maior procura pelas crias se dá na primeira semana em que saem da condição de amas para entrarem na fase de ordenha. Com o passar do tempo vai diminuindo a atração das búfalas por suas crias. Gradativamente, elas vão se adaptando ao novo sistema, de forma que em poucos dias as búfalas passam pelo curral de reconhecimento com indiferença. Essa apartação espontânea, não provoca estresse nas búfalas, conseqüentemente, elas persistem em suas lactações. No nosso caso, após a implantação do sistema, não verificamos nenhum corte na lactação. No ano passado, houve uma média de 240 dias de lactação por búfala.

2.0 SINTOMAS DE ENFERMIDADE (desnutrição e verminoses)

2.1 Pêlo áspero sem brilho e cor mais clara (parecendo com o pelo de macaco)
2.2 Barrigudo
2.3 Olhar triste sem vida
2.4 Indisposição para mamar
2.5 Corrimento nasal
2.6 Apresentando secreção no globo ocular
2.7 Fezes ralas e fétidas
2.8 Respiração ofegante
2.9 Andar lento
2.10 Inanição (por falta de comida)

3.0 VERMINOSES

Neste trabalho só iremos falar sobre verminose por ser a mais importante doença que acomete os bezerros bubalinos. Para combater esse mal, adotamos as orientações do pesquisador da Embrapa do Pará, Dr. Hugo Didonet Lau. Com sua permissão, transcrevo abaixo:

3.1 O principal helminto (verme) que parasita os bubalinos jovens é o Neoascaris vitulorum. É responsável por cerca de 40% das mortes de bezerros jovens. As larvas parasitárias desse verme podem atingir o feto, na fase pré-natal, por infestação transplacentária. Essas larvas também podem ser transmitidas, para o bezerro recém-nascido, por via transmamária, através do colostro

3.2 A infestação transmamária é a que ocorre com maior freqüência (cerca de 80% dos casos)

3.3 Os animais parasitados apresentam-se debilitados, apáticos, sem apetite, ventre flácido (barrigudo), pelos ásperos e sem brilho, com diarréia escura e fétida (odor butírico).

3.4 O tratamento e controle dessa enfermidade (parasitos) DEVE SER FEITA AOS 15, 30, 60 E 180 DIAS DE VIDA DOS ANIMAIS, sempre utilizando-se vermífugos de amplo espectro tais como: mebendazole (8,8 mg/kg), oxibendazole(10mg/kg), febendazole (10 mg/kg), ivermectina (0,2 mg/kg).

3.5 A primeira dosificação tem a função de eliminar a população de vermes provenientes da infestação transplacentária/transmamária. A segunda, de eliminar os vermes não destruídos na primeira dosificação. A terceira, tem dupla função: reforçar a segunda dosificação e eliminar os helmintos de outras espécies (começam a parasitar nesse período de vida do animal).
A última dosificação tem a função de diminuir a população de vermes
(trichostrongilídeos) durante o estresse da desmama.

3.6 A vaca gestante não deve ser jamais dosificada. Primeiro para evitar acidente com a gestação e, segundo, porque os anti-helmínticos não
destruirão as larvas de N. vitulorum no interior da vaca (elas encontram-se encapsuladas na musculatura do animal.

3.7 Qualquer outro esquema de dosificação (estudei todos) não é válido cientificamente, nem economicamente. A dosificação do bezerro com um dia de vida é a coisa mais bizarra que existe, pois animais nessa idade não têm estrutura biológica para receber qualquer tipo de medicamento.

3.8 Certamente, ao ser utilizado, este esquema de dosificação o criador estará controlando eficiente a verminose, diminuindo a mortalidade de
bezerros, aumentando a produtividade de sua criação e, o mais importante, economizando seu dinheiro.

4.0 PRINCIPAIS VANTAGENS DO MANEJO DE BEZERROS BUBALINOS EM UMA PECUÁRIA DE LEITE

4.1 Quanto aos bezerros

4.1.1 Redução do número de óbitos
4.1.2 Melhor desenvolvimento ponderal
4.1.3 Maior precocidade no desmame
4.1.4 Menor índice de infecção

4.2 Quanto às matrizes

4.2.1 Redução do corte precoce na lactação
4.2.2 Maior produção de leite
4.2.3 Estímulo para a involução uterina
4.2.4 Menor período de serviço (tempo entre parição e o primeiro cio fértil)
4.2.5 Melhor adaptação ao sistema de ordenha sem bezerro ao pé

4.3 Quanto aos benefícios ao produtor

4.3.1 Maior produção de leite
4.3.2 Obtenção de leite de melhor qualidade
4.3.3 Maior crescimento do rebanho
4.3.4 Redução do número de funcionários

Alberto Couto
Faz. Castanha Grande
São Luiz do Quitunde-Alagoas
Fones: 82 254 1115 - 82 9976 3800 - 82 2312005
E-mail couto.a@uol.com.br



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